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Psicopatia: Diagnóstico clínico

O transtorno de personalidade antissocial mais perigoso e extremo.

A psicopatia é uma condição caracterizada pela ausência de empatia e pelo embotamento de outros estados afetivos, como insensibilidade, distanciamento e falta de empatia. Esses traços permitem que os psicopatas sejam altamente manipuladores. Embora a psicopatia esteja entre os transtornos mais difíceis de detectar, psicopatas podem parecer normais, até mesmo charmosos. Contudo, por baixo dessa aparência, eles não possuem qualquer semelhança com a consciência. Sua natureza antissocial os inclina frequentemente (mas nem sempre) à criminalidade.

O conceito de psicopatia é conhecido há séculos, mas somente nos últimos anos recebeu considerável atenção na pesquisa, especialmente através dos esforços de Robert Hare, um pesquisador proeminente no campo da psicologia criminal, que liderou a criação de ferramentas de avaliação para identificar traços de personalidade e comportamentos atribuíveis a psicopatas. A psicopatia adulta é amplamente resistente ao tratamento, embora existam programas destinados a tratar jovens insensíveis e sem emoção, com a esperança de evitar que se tornem psicopatas.

A psicopatia é altamente correlacionada com o transtorno de personalidade antissocial, que, por sua vez, está frequentemente associado a crimes e violência. Fatores como anatomia cerebral, genética e o ambiente em que uma pessoa cresce podem contribuir para o desenvolvimento de traços psicopáticos. Para mais informações sobre causas, sintomas e tratamentos relacionados a esse transtorno, é fundamental entender sua relação com a psicopatia, que se manifesta de formas complexas e muitas vezes destrutivas.

Como a psicopatia é diagnosticada

Pode ser diagnosticada por meio da Hare Psychopathy Checklist, uma ferramenta composta por 20 itens, que avaliam essas características em uma escala de 0 a 2. A pontuação clínica para psicopatia é de 30 ou mais, sendo que o serial killer Ted Bundy obteve 39 pontos. A psicopatia é influenciada principalmente pela genética, embora fatores não genéticos também desempenhem um papel. Estudos mostraram que áreas cerebrais, como a amígdala, podem funcionar de maneira atípica em psicopatas, mas ainda há muito a aprender sobre as causas dessas diferenças.

A lista de verificação foi desenvolvida na década de 1970 pelo pesquisador canadense Robert Hare. Uma avaliação verdadeira deve ser conduzida por um profissional de saúde mental.

A versão revisada da lista de verificação inclui as seguintes características:

  • Loquacidade/charme superficial
  • Grandioso senso de autoestima
  • Necessidade de estimulação/propensão ao tédio
  • Mentira patológica
  • Enganador/manipulador
  • Falta de remorso ou culpa
  • Afeto superficial (ou seja, respostas emocionais reduzidas)
  • Insensível/falta de empatia
  • Estilo de vida parasitário
  • Controles comportamentais deficientes
  • Comportamento sexual promíscuo
  • Problemas comportamentais precoces
  • Falta de metas realistas e de longo prazo
  • Impulsividade
  • Irresponsabilidade
  • Não aceitar a responsabilidade pelas próprias ações
  • Muitos relacionamentos conjugais de curto prazo
  • Delinquência juvenil
  • Revogação da liberdade condicional (da prisão)
  • Versatilidade criminal (ou seja, comete diversos tipos de crimes)

Psicopatia tem cura

O tratamento para psicopatia tem sido um desafio, especialmente quando a pontuação é alta, como nas pessoas com mais de 30 pontos na lista de Hare. Pesquisas indicam que traços psicopáticos e comportamentos antissociais podem diminuir com o tempo, mas a eficácia da terapia em alterar esses traços ainda não é totalmente conhecida. Philippe Pinel, no século XIX, e Hervey Cleckley, no início do século XX, foram pioneiros ao estudar o transtorno e determinaram que o tratamento muitas vezes não trazia resultados, com Cleckley, em sua obra The Mask of Sanity, concluindo que a psicopatia era, em muitos casos, irreversível. Robert Hare, também, observou que os psicopatas são “maus candidatos à terapia”, pois programas de tratamento frequentemente apenas forneciam novas desculpas para o comportamento deles.

Apesar dessas dificuldades, há pesquisadores que continuam buscando abordagens terapêuticas. O modelo de tratamento RNR (risco-necessidade-responsividade), que foca em infratores de alto risco, demonstrou algum sucesso, mostrando um impacto modesto, mas importante, na redução de crimes. Também se observou que programas focados no controle de comportamento agressivo e a combinação de psicoterapia com medicação psicotrópica podem oferecer benefícios. Para jovens com altos traços psicopáticos, como insensibilidade e falta de emoção, abordagens como terapia intensiva de custódia, habilidades sociais e terapia de substituição de agressão mostraram resultados positivos.

Entretanto, a pesquisa sobre o tratamento de psicopatia ainda é limitada. Poucos estudos de alta qualidade demonstram mudanças substanciais nos sintomas de psicopatia, seja em adultos ou em jovens. A lista de verificação de Hare, desenvolvida na década de 1970, continua sendo uma ferramenta essencial para diagnosticar e avaliar a psicopatia, com características como loquacidade, charme superficial, impulsividade, e falta de empatia.

Estima-se que cerca de 1% dos homens e 0,3% a 0,7% das mulheres podem ser classificados como psicopatas. Além disso, características psicopáticas podem ser observadas já na infância, com traços como insensibilidade e falta de emoção, podendo levar a um diagnóstico de transtorno de conduta. Contudo, isso não significa necessariamente que a pessoa se tornará um psicopata adulto.

3 Características principais da psicopatia

  1. Maquiavelismo. Pessoas com alto nível de maquiavelismo são astutas, manipuladoras e priorizam poder, dinheiro e vitória acima de tudo. Elas desconsideram regras morais e sociais, mentindo e manipulando os outros sem culpa, seja para ganho pessoal ou por diversão. Usam ferramentas como engano, culpa, intimidação e bajulação para distorcer as emoções e comportamentos alheios. Superficialmente, são charmosas e queridas, mas essa fachada se desfaz rapidamente, revelando seu egoísmo. Um exemplo clássico é Amy Dunne, de Gone Girl, que manipula os homens em sua vida usando mentiras, culpa, sexo e um diário elaborado, enganando até os leitores até revelar sua verdadeira natureza.
  2. Falta de consciência ou Empatia. Pessoas com alto nível de psicopatia não possuem a “voz interior” que guia a maioria das pessoas a agir com empatia, culpa ou remorso. Essa falta de consciência faz com que elas não experimentem emoções sociais como simpatia ou pena, permitindo que se envolvam em comportamentos que outros apenas fantasiam, mas nunca realizam. Enquanto alguém pode pensar “eu poderia machucá-lo” em um momento de raiva, um psicopata age sem freios, seguindo impulsos sem hesitação. Essa característica está ligada ao baixo controle de impulso, levando a comportamentos agressivos, sexuais casuais e ações arriscadas, com um mantra que poderia ser “aja primeiro, pense depois”. Um exemplo marcante é Amy Dunne, de Gone Girl, que age de forma fria, calculista e quase reptiliana, sem empatia ou senso de certo e errado. Sua manipulação e falta de humanidade revelam uma personalidade glacial, incapaz de demonstrar calor ou compaixão, mesmo diante do sofrimento que causa aos outros.
  3. Narcisismo. Pessoas com alto nível de narcisismo são extremamente egocêntricas e possuem uma visão inflada de suas qualidades e realizações, frequentemente negando suas próprias falhas e projetando-as nos outros. Por exemplo, um narcisista que se sente inseguro sobre sua inteligência pode acusar os outros de serem burros para elevar seu próprio ego. Elas adoram elogios e recompensam aqueles que as admiram, mas são extremamente sensíveis a críticas, reagindo com raiva e retaliação. Sua autoestima é instável: embora se coloquem em um pedestal, qualquer crítica pode derrubá-las facilmente, sendo vista como um ataque pessoal. Devido ao seu foco excessivo em si mesmas, têm dificuldade em manter relacionamentos saudáveis e buscam posições de autoridade para exercer controle sobre os outros, nunca assumindo a culpa por seus problemas. Um exemplo literário notável é Annie Wilkes, de Misery, que, apesar de não parecer inicialmente arrogante, revela seu narcisismo ao se considerar superior aos outros, tratando-os com desdém e sem empatia. Sua visão distorcida de si mesma e sua falta de compaixão pelos outros ilustram de forma sutil e poderosa as características do narcisismo.

Psicopatia, sociopatia e transtorno de personalidade antissocial

Psicopatia, sociopatia e transtorno de personalidade antissocial (TPAS) são termos frequentemente usados de forma intercambiável, mas há diferenças importantes. O DSM, que é a principal referência para diagnósticos clínicos, usa o TPAS para descrever comportamentos antissociais, sem fazer uso dos termos “psicopata” ou “sociopata”. Embora ambos os termos se refiram a pessoas que desconsideram regras morais, a principal diferença é que a sociopatia é geralmente atribuída a fatores sociais ou ambientais, enquanto a psicopatia é considerada mais inata, com causas genéticas e não genéticas influenciando o desenvolvimento de traços antissociais.

Em relação ao TPAS e à psicopatia, ambos compartilham características, mas não são a mesma condição. Uma pessoa pode ter TPAS, com foco em comportamentos antissociais, sem necessariamente apresentar os traços essenciais da psicopatia. Psicopatas, portanto, representam uma fração da população com TPAS.

Psicopatia e a violência

A psicopatia, embora frequentemente associada à violência, é um transtorno complexo que não se traduz automaticamente em comportamento criminoso. Estudos demonstram uma correlação estatística entre psicopatia e atos violentos, impulsionados por características como impulsividade e falta de remorso, que podem levar indivíduos psicopatas a transgredir normas morais.

No entanto, nem todos os psicopatas são violentos, e a agressividade pode ser influenciada por outros fatores e transtornos. Estima-se que cerca de 25% dos assassinos condenados sejam psicopatas, mas muitos psicopatas não possuem histórico de violência. Da mesma forma, embora muitos assassinos em série exibam traços psicopáticos, nem todos são psicopatas.

A pesquisa também indica que psicopatas podem apresentar uma resposta de medo atenuada, o que pode contribuir para comportamentos de risco. Essa característica, denominada “destemor” é avaliada em instrumentos de diagnóstico da psicopatia.

Em resumo, a psicopatia aumenta a propensão à violência, mas não é um determinante absoluto. A complexidade do transtorno exige uma análise individualizada, considerando outros fatores psicológicos e sociais.

Dunlhyan Arruda

Escritor, Blogueiro e Terapeuta

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