Como a instabilidade política, econômica e tecnológica está pressionando nossa saúde mental
Em 2025, muita gente descreve a sensação de viver em “modo alerta”: quando a mente parece estar sempre antecipando a próxima crise. A política global oscila rapidamente, a economia muda o ritmo sem aviso, novas tecnologias redesenham rotinas, e conflitos culturais se intensificam. Mesmo quando há uma breve impressão de estabilidade, surge um novo fator de incerteza e o corpo volta a reagir como se precisasse se preparar para o pior.
Se essa instabilidade fosse como uma montanha-russa, a solução seria simples: descer, respirar e voltar para casa. Mas a diferença é que agora o “brinquedo” não desliga. E quando a imprevisibilidade se prolonga, cresce o risco de ansiedade e depressão , duas condições que vêm aumentando desde 2019 e que, em contextos instáveis, tendem a aparecer com mais frequência e intensidade.
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Isso pode acontecer com qualquer pessoa e não é “fraqueza”
A incerteza é psicologicamente desgastante porque o cérebro humano foi moldado para prever e controlar riscos. Quando ele não consegue estimar o que vem pela frente, ativa sistemas de vigilância e estresse com mais facilidade.
Em períodos de instabilidade prolongada, dois fenômenos costumam ocorrer ao mesmo tempo:
- Piora de sintomas em quem já tinha vulnerabilidade prévia (por exemplo, pessoas com histórico de ansiedade, depressão, pânico, insônia ou estresse pós-traumático).
- Aumento de novos casos, inclusive em pessoas que se consideravam “equilibradas” e sem diagnóstico.
Ou seja: não se trata apenas de “estar preocupado”. Trata-se de uma pressão ambiental contínua que pode alterar sono, humor, energia, concentração e até a forma como interpretamos o mundo.
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Política, sensação de impotência

Durante muito tempo, em vários países, mudanças políticas pareciam distantes do cotidiano. Hoje, para muitas pessoas, isso mudou: temas como direitos, segurança, trabalho, informação e confiança institucional entraram na vida diária de um jeito mais direto. Quando alguém percebe que decisões públicas contrariam seus valores ou ameaçam sua segurança, é comum surgir um sentimento difícil de nomear: impotência.
Para descrever um tipo específico de mal-estar cultural, algumas pessoas usam o termo koinostalgia da ideia de comunidade (koinonia) e dor (algos). É o desconforto que aparece quando o “chão social” muda: normas, linguagem, relações e referências coletivas se transformam rápido, e a pessoa sente que perdeu o lugar, o pertencimento ou a previsibilidade.
Isso pode se manifestar como:
- tristeza, raiva, medo, exaustão;
- luto simbólico (pela perda de uma sensação de normalidade);
- isolamento (para evitar conflitos ou “não aguentar mais conversar sobre isso”).
Alguns estressores sociais que amplificam essa resposta são:
- Perda de controle: sensação de que o rumo da sociedade é decidido sem você e contra você.
- Polarização e conflito: relações tensas, família e amizades fragilizadas, ambientes hostis.
- Erosão de confiança: dúvida constante sobre instituições, mídia, justiça e “quem diz a verdade”.
- Medo de perda de direitos e segurança: incerteza sobre futuro, autonomia e proteção.
- Exposição contínua a conteúdo perturbador: notícias e redes sociais com alta carga emocional, pouca pausa e muito confronto.
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Seu cérebro diante da incerteza econômica
A instabilidade financeira não atinge só o bolso , atinge o cérebro executivo, responsável por planejamento, foco e tomada de decisão. Quando a sobrevivência parece incerta, a mente tende a entrar em “modo curto prazo”: resolver o agora, apagar incêndios, evitar danos imediatos. O resultado pode ser um paradoxo cruel: quanto maior a pressão econômica, mais difícil fica tomar decisões boas.
Um exemplo cotidiano: pequenas taxas, multas, atrasos e cobranças inesperadas podem iniciar um efeito dominó de estresse, distração e erros. Não é falta de caráter nem “desorganização crônica” em essência é, muitas vezes, sobrecarga cognitiva.
Há evidências de que o estresse financeiro consome recursos mentais e pode reduzir desempenho em tarefas de atenção e raciocínio, especialmente quando a pessoa precisa escolher entre necessidades básicas. Em termos simples: a escassez ocupa espaço na mente.
Além disso, a incerteza econômica costuma vir acompanhada de:
- tensão em relacionamentos (discussões, insegurança, sensação de “peso”);
- sobrecarga de trabalho (para compensar perdas ou manter estabilidade);
- menos acesso a cuidado em saúde mental (tempo curto, custo alto, prioridade para “o urgente”).
Enquanto a instabilidade política frequentemente gera raiva e conflito social, a econômica frequentemente gera exaustão: cansaço mental, irritabilidade, desesperança, ruminação, distúrbios do sono e fadiga decisória.
O que acontece “por dentro”: a neurobiologia do modo alerta
Quando a incerteza vira rotina, o sistema de estresse pode sair do controle. O que era proteção vira desgaste. Alguns mecanismos bem descritos na literatura científica ajudam a entender o fenômeno:
1) Circuitos de ameaça mais sensíveis
Em contextos imprevisíveis, o cérebro tende a interpretar sinais ambíguos como perigosos. Isso aumenta a hipervigilância e pode alimentar ansiedade generalizada — aquela sensação de que algo ruim “vai acontecer”, mesmo sem um motivo claro.
2) Dificuldade de “desligar” o medo
Para o cérebro, aprender que algo não é mais perigoso exige repetição e previsibilidade. Quando o ambiente continua incerto, ele mantém o alarme ligado por mais tempo. Resultado: o corpo reage como se estivesse sempre prestes a enfrentar uma ameaça.
3) Estresse crônico e química do humor
A exposição prolongada ao estresse pode desregular sistemas relacionados ao humor e à motivação (como vias envolvendo serotonina e dopamina). Isso pode contribuir para apatia, irritabilidade, anedonia (perda de prazer) e maior vulnerabilidade à depressão.
4) Cérebro “mais ruidoso” e menos flexível
O estresse crônico pode prejudicar a plasticidade neural a capacidade do cérebro de se adaptar. Em termos práticos, pode ficar mais difícil mudar de estratégia, relaxar, recuperar-se emocionalmente e sentir esperança.
5) Cortisol alto por muito tempo
Quando o cortisol permanece elevado, regiões ligadas à memória e regulação emocional podem ser afetadas. Isso se reflete em sono ruim, dificuldade de concentração, maior reatividade e menor resiliência.
Então… o que fazemos com isso?
A instabilidade não está apenas nas manchetes: ela entra no corpo, atravessa o sono, muda o humor e reorganiza prioridades. Entender o mecanismo é um passo importante porque reduz culpa e aumenta senso de agência: se existe um processo, também existem pontos de intervenção.
